Entrevista por Eurico de Barros

 

Tudo pela história Coimbra quase não existe no mapa cinematográfico português, tirando o "Capas Negras" e pouco mais. E agora surge "Respirar (Debaixo d'Água)", integralmente feito lá. Você vive entre Berlim e Coimbra. Sempre foi sua ideia rodar em Coimbra, ou Berlim foi hipótese?
Não, porque há sempre a questão da língua. O português é a minha língua, é a que eu melhor domino. Eu imaginei a história toda em Coimbra. É normal que uma pessoa vá trabalhar onde se sente mais seguro, e Coimbra é o sítio que eu conheço melhor. É como trabalhar em casa.

A história não tem nada a ver com o folclore coimbrão, os estudantes, as capas, etc. Pelo contrário, decorre numa Coimbra nada familiar. Foi uma escolha deliberada?
Foi, porque eu estou cansado daquela imagem da Coimbra académica, que só está a estagnar a cidade. Já não acontece muita coisa ern Coimbra, aquilo está cada vez mais aborrecido e a ideia foi também fugir completamente a essa imagem.

O filme demorou dois anos a fazer. Que dificuldades é que teve?
Estava em Berlim quando o escrevi e soube do concurso para as "curtas" por um stand do ICAM lá no festival. Concorri e enquanto houve o compasso de espera para saber se tinha subsídio ou não, comecei a trabalhar como assistente do Joaquim Sapinho. No dia a seguir a começarmos a filmar, soube que tinha recebido o apoio. Como tinha assumido o compromisso e era uma oportunidade para ganhar experiência, houve um interregno de mais seis meses. Eu e a Dörte Schneider fizemos a produção toda sozinhos. Não tínhamos experiência nenhuma, e é complicado: muitos décors, muitos actores, muita figuração, não sabíamos como se filmava debaixo de água. etc.

Então foi, em grande parte, um salto no desconhecido.
Sim. Antes de apresentar o projecto ao ICAM . tentei arranjar uma produtora. Mas não havia ninguém interessado, talvez pela duração do filme, sabe-se que o dinheiro para as "curtas" não é muito. Quando o subsídio veio, apareceram pessoas interessadas em produzir, mas aí pensámos: "bom, é melhor sermos nós a tratar do assunto e controlarmos as coisas". De outro modo, não teria sido possível fazer um filme desta dimensão.

As curtas-metragens tendem muitas vezes para a abstracção, para o experimentalismo e em Portugal não se foge a isso. "Respirar (Debaixo d' Água)" é uma história com uma ideia central e princípio, meio e fim. Vê-se que tem gosto em contar histórias.
Isso é extremamente importante para mim. Tento sempre concentrar-me nas histórias que quero contar. Tomo todas as decisões em função de como contar a história. Os décors, a escolha dos actores, a colocação da câmara, tudo é pensado para potenciar a história ao máximo, para a dramatizar.

Sequências como a do carro afundado não se vêem muito no cinema português. Foi complicada de filmar?
Sim. Filmámos num tanque de lavar a roupa. Tentámos primeiro num rio, mas era perigoso de mais. Então encontramos este tanque antiquíssimo - creio que é romano - numa aldeia ao pé de Coimbra, que era perfeito. Dava para parar a grua da G N R ao lado, que suspendia o carro e nos baixava e levantava. Mas a sequência também foi filmada um bocado às escuras. No primeiro dia, estragou-se a câmara. Entrou água no saco à prova dela e lá foi a câmara à vida. Voltámos lá um segundo dia e a ideia foi filmar o máximo de material possível.

Já tem fôlego para uma longa-metragem?
Quero ir para a longa-metragem. É preciso mais tempo para se contarem histórias mais densas.

Este filme está a meio caminho...
Está. Era para ter tido 20 minutos, pouco antes da rodagem. Foi reescrito, ficou com meia hora e quando fomos à montagem ficou com 45 minutos. Estou já a preparar uma longa-metragem, um drama familiar - ou antes, uma comédia trágica - sobre um médico dentista e a sua família. Passa-se na Figueira da Foz, durante o Inverno.

 

"Diário de Notícias", entrevista por Eurico de Barros